A Pele

O novo longa de Steven Shainberg (Secretária) prova que pode haver uma distância enorme entre o que um filme tenta dizer e o que ele efetivamente diz através de suas imagens. A Pele começa admitindo que ficcionaliza (com altos vôos de fantasia, diga-se de passagem) o passado de Diane Arbus, antes dela tornar-se uma das fotógrafas americanas mais respeitadas do século XX. Aqui ela (Nicole Kidman, dormindo) é retratada como uma dona de casa respeitável e deprimida, com duas filhas e um marido fotógrafo-publicitário.
Diane passar a sentir uma forte atração pelo novo vizinho do apartamento de cima, Lionel (Robert Downey Jr.), ex-aberração de circo, um homem mais peludo que o Rei Leão. O sujeito torna-se seu guia para conhecer de perto outros marginais, pessoas tão inusitadas quanto ele. Durante este processo ela perde a família e a respeitabilidade, mas amadurece como pessoa e artista. Estamos então diante de uma história de amor entre diferentes, confrontando uma América idealizada e outra subterrânea? De modo algum.
Pois A Pele apenas reforça contrastes que tenta (ou deveria) borrar. Diane e Lionel, por exemplo, podem morar no mesmo prédio, mas o apartamento dele parece estar em outro planeta – até o caminho pra chegar lá é distorcido. Os amigos dele são aberrações simpáticas que jamais ganham importância dramática. Mesmo Lionel permanece uma figura pouco definida, servindo mais como símbolo pra atração de Diane pelo incomum que um personagem crível. Quanto a Diane, Shainberg mostra desde o começo o quanto ela é "estranha": tem tara por se exibir em janelas e um fetiche por pêlos (Lionel sortudo!).
Ou seja, ela é uma aberração também – apenas teve a sorte de ter o corpo da Kidman e morar num apartamento "normal". É sintomático que seu amadurecimento se dê cada vez que dorme no apartamento de Lionel. Enquanto isso, "os normais" da trama (a família de Diane) são filmados como "normais", ainda que antipáticos. Portanto, A Pele é um filme que, apesar das boas intenções, separa o mundo em categorias previsíveis. Prefere enxergar as diferenças do que as semelhanças entre as pessoas.
No fundo, é uma traição à obra de Diane Arbus, que questionava com suas fotos conceitos simplórios como normal e anormal. Steven Shainberg pode até gostar dos seus freaks, mas só sabe filmá-los duma distância segura, sem se misturar com eles. É uma pena, pois a magia do cinema sempre foi fazer com que o "o outro" da tela grande se tornasse "o eu" espectador. Shainberg ainda não aprendeu isso. ___________________________________________________________
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