Os Donos da Fila

Quando finalmente chega minha vez na fila um senhor de idade passa na minha frente sem olhar ou pedir passagem. Engulo minha raiva, sei que ele está certo, apenas sinto que ele está errado. O senhor demora pra comprar o bilhete. De repente ele vira pra trás e grita, “Sua carteirinha de estudante não serve!”. Surge o neto, que devia ter minha idade. Ele entrega outra carteirinha pro avô. Quero gritar, quero protestar, mas escolho não reagir. O velho novamente vira pra trás e grita, “Essa aqui também não serve!”. O neto intervém, diz pro avô que ele precisa mostrar as duas carteirinhas ao mesmo tempo pra comprar o bilhete de Os Donos da Noite. O ardil dá certo e o neto consegue seu bilhete.
Eu também compro o meu e vou pra sala, que já está escurecendo. O lugar está quase lotado e são quase todos mais jovens do que eu. Felizmente não enxergo o neto pilantra. Escolho uma poltrona. Entre o público, há uma turma daquelas que gosta de rir de tudo e falar alto. “Vai ser uma daquelas sessões barulhentas”, pensei. Mas o filme começa e, contrariando minhas expectativas, James Gray, Joaquin Phoenix e Robert Duvall impõe respeito. Os espectadores ficam calados, eles querem saber o que vai acontecer naquela história, com aqueles personagens.
Então, diante da mais comovente declaração de amor fraternal do cinema americano recente que fecha Os Donos da Noite, um moleque sentado atrás de mim grita: “Tosco! Que tosco! Eu sempre me decepciono! Não acontece nada nesse filme! Muito tosco!”. Sou um dos últimos a sair da sala. No corredor eu vejo um cartaz de Lady Chatterley. Fico pensando que gênio do marketing achou que seria uma boa idéia anunciar esse filme no Shopping Metrô Santa Cruz. Vou embora pra casa. Estou ficando velho e não entendo mais a garotada de hoje. Isso não é ruim – na próxima fila eu também vou passar na frente de todo mundo.
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